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Texto Num lugar intermédio por Rita Sousa Tavares

Por Rita Sousa Tavares

29 mai 2020

Quem se passear por Lisboa por estes dias é bem capaz de esquecer por momentos o pesadelo vivido nos últimos dois meses.

Desconfinamento na fase 3, 30º C nas ruas, jacarandás em flor, praias com a (nova) lotação máxima permitida, sendo que, pela primeira vez desde que me lembro de existir, o conceito de lotação balnear foi ou será aplicado em Portugal.

Estes não são os meus dias, já que me encontro em Toronto, mas conheço muito bem os portugueses e Lisboa - a minha cidade – para, mesmo à distância e através de relatos e confissões, saber que a chegada do verão e o Santo António estão, como era esperado, a funcionar como um antiviral de largo espectro - pelo menos para as viroses da alma e do espírito.

As instituições culturais portuguesas abriram as portas no simbólico Dia dos Museus, 18 de maio, num gesto de apoio ao setor numa fase em que a arte, tal como todas as outras realidades, ganhou uma natureza híbrida no que respeita ao seu funcionamento: em plena fase 3 de desconfinamento, já nada se quer e se faz 100% online e, da mesma forma, nada do que é físico se vive e goza a 100% sem restrições. Será este o futuro das coisas? Parte online, parte ao vivo?

Infelizmente, não se antecipa a necessidade de uma gestão muito cuidada na afluência aos museus, à semelhança do que é feito nas praias, até porque os turistas - a grande maioria dos seus visitantes - são agora escassos e ninguém poderá antecipar quando voltarão a enchê-los.

Os tempos que se seguem serão importantes para definir as novas linhas em que todos nos inscreveremos e, no campo das artes plásticas, o caso português - sendo um dos primeiros exemplos a “desconfinar” - poderá sem dúvida vir a servir de exemplo. Esperemos que positivo, para testar novos modelos de funcionamento de museus, projetos e eventos culturais.

Desde a primeira edição da ARCOlisboa, em 2016, que participo na produção do chamado “programa paralelo”, uma das várias competentes da feira que, tal como o nome indica, inclui todas as atividades exteriores ao espaço físico do evento. Neste caso, a Cordoaria Nacional.

Dada a dimensão boutique desta feira internacional, integrar a cultura da cidade na sua programação sempre foi uma prioridade estratégica, no sentido de permitir que toda a experiência ganhe a dimensão e a expressão necessárias para atrair os amantes de arte, em particular os colecionadores internacionais. Juntas, a feira e a cultura de Lisboa têm muito mais força, e a verdade é que as quatro edições já realizadas provam que esta relação funciona. As duas dimensões dançam e dialogam desde a primeira hora, a um ritmo e com um grau de intimidade só possíveis de concretizar numa cidade também muito singular, onde depressa se chega a todos os bairros, e onde o epicentro dos acontecimentos, a ARCOlisboa, acontece num monumento histórico, com janelas rasgadas atravessadas por luz natural e infiltradas pelo Tejo. Não são muitas as feiras de arte que gozam de tal sorte. Por fim, as experiências são complementares. As exposições da cidade reforçam o trabalho de alguns dos artistas representados na feira, e vice-versa.

De manhã, as visitas guiadas às coleções, às exposições nos museus e as morning galleries permitem que, para além de se ver, ouvir e falar de arte, se apanhem no ar relatos de cenas avulsas das noites anteriores: das inaugurações às várias festas, que animam, por vezes até ao romper da manhã seguinte, a ARCOlisboa. A partir da hora do almoço ruma-se à Cordoaria, onde o entardecer acompanha os fóruns e a noite se prolonga em programas culturais e lúdicos.

Não se trata de uma semana social e culturalmente extenuante, mas antes de um programa vivido com uma saudável dose de euforia e descontração, onde tudo se cruza: as pessoas, os bairros da cidade, as exposições e as horas. Tudo é orgânico, livre, e vivido no limite dos sentidos. Da insubstituível relação empática estabelecida com a peça de arte que se apresenta à nossa frente, aos ecos do fado vadio que ecoam nas ruas de Alfama. Ver, ouvir, sentir, tal como se vive Lisboa.

Produzir um programa paralelo puramente digital para acompanhar esta edição online da feira seria como visitar Lisboa, ou qualquer outra cidade, apenas a partir do computador. Ainda assim, neste momento excecional, interessa conhecer e perceber a resposta dada, em termos de conteúdos e atividade online, por alguns dos espaços e movimentos artísticos - muitos deles integrantes do “programa paralelo” das várias edições da ARCOlisboa. Partimos do principio de que estas propostas não são um exercício de substituição da arte vista a olho nu pela lente digital, mas sim da arquitetura que habita este momento e este espaço em que todos gravitamos, e que cresce a cada segundo numa nova ordem cósmica em “qualquer coisa de intermédio”, como sugere o titulo da exposição de Catarina Botelho, agora patente no Pavilhão Branco em Lisboa e cuja ideia confisco para o título desde texto.

Para além dos casos da EGEAC e do MAAT, já relatados no site da ARCOlisboa,  integrando o último um dos exemplos do que de mais arrojado se produziu a nível de conteúdos museológicos digitais no contexto atual, no campo da arte contemporânea destacam-se também os casos de Serralves com o SOLE – Serralves online experience, o Museu Gulbenkian e o Museu Coleção Berardo. Através dos seus sites e redes sociais, passou a ser possível visitar digitalmente e/ou virtualmente as exposições patentes, acompanhar conversas online com curadores, artistas e diretores destes museus, ou mesmo ter acesso a consultas livres dos acervos digitais. Todos estes espaços são visitáveis a partir do site da ARCOlisboa.

Não há dúvida de que quem tenha tempo para consultar estes acervos, e assistir a todas estas horas de conferências, sai da pandemia com uma bagagem cultural enriquecida. Sairemos todos bem alimentados de conteúdos e teses pós-pandémicas, discutidas em janelinhas quadriculadas com caras filmadas em planos contra-picados.

Mas as propostas mais criativas e até, em alguns casos, mais sofisticadas surgiram das estruturas mais pequenas. A prova de que por vezes ser pequeno e independente promove a criatividade. Estruturas e projetos que, na ausência de uma coleção permanente ou mesmo de um espaço físico para mostrar virtualmente, usaram o momento para catalisar ideias e projetar, sem arrogância, o futuro que nos espera.

Casos como o da edição online da bienal de arte Boca, um projeto que vive de e nos espaços da cidade, e que em apenas duas semanas repensou todo o seu papel e se reorganizou na terra do nada, com uma programação totalmente online e criada para um momento de conversas, performances e interações com artistas e outros profissionais http://www.bocabienal.org/programa/2020/

O Hangar – centro de investigação artística, abriu um novo espaço online, (https://hangar.com.pt/online), com uma programação verdadeiramente impressionante a decorrer desde o dia 12 de maio, que incluiu performances, talks e cursos dedicados ao tema da arte/educação “decolonial”.

O Walk and Talk, festival de arte contemporânea que acontece todos os anos em julho, na ilha de São Miguel, nos Açores, promete manter uma programação física para os visitantes locais e uma alternativa online pensada para quem quer viver a experiência do festival a partir de casa (https://www.walktalkazores.org/).

Finalmente, o projeto artístico Kunsthale Lissabon, com uma ideia, no mínimo original, de partilha de receitas gastronómicas do meio artístico. Muito bem-apanhado, já que se não restavam dúvidas sobre a relação existente entre a arte e cozinha, também deixaram de existir sobre a relação com a quarentena. (https://kunsthallelissabon.tumblr.com).